sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sonho americano às margens do Tapajós

Marinho Andrade parece ser daqueles que, quando certo de uma idéia, convence até os mais incrédulos. Num dia qualquer do começo da década de 1990, ele estava lendo jornal quando um pequeno texto, ao final de uma reportagem sobre o Projeto Jari, chamou-lhe a atenção. A notinha relembrava os leitores sobre o falido projeto de Henry Ford na Amazônia: em Fordlândia, no Pará, o magnata norte-americano arriscou a sorte e construiu uma cidade nos moldes dos EUA, às margens do rio Tapajós, para produzir látex, o insumo principal da sua poderosa e crescente indústria automobilística, a Ford Motor Company. Era 1928 e o mentor do projeto jamais pisaria em terras brasileiras. Por desconhecimento sobre o manejo de seringueiras e desavenças com operários nativos, o projeto estava fadado a dar errado. Marinho terminou a leitura e imediatamente meteu na cabeça que precisava contar esta história.

Foram quase vinte anos entre a simples vontade de filmar e o resultado final. Do desconhecido distante surgiu uma verdadeira obsessão. O autor do documentário “Fordlândia” - eleito Melhor Documentário pelo Júri Popular do Amazônia Doc.2 – Festival Pan-Amazônico de Cinema - começou então uma pesquisa frenética sobre o projeto de Henry Ford. “’Por quê ninguém sabe dessa história? Se ninguém sabe o que é, vai ser legal fazer’, eu pensava. Vi que daria um documentário belíssimo”, ele diz. O filme foi produzido por meio da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, com patrocínio da Companhia Siderúrgica Nacional. “É uma obsessão muito boa, um prazer incomensurável”, fala Marinho, sobre ter passado quase vinte anos atrás de informações, pessoas, imagens, arquivos, livros, documentos, trabalhos acadêmicos e tudo que pudesse servir de base para o documentário. “Foi uma aventura arranjar patrocinador. Todos ficavam com o pé atrás”, conta.

Ainda sem recursos, a primeira viagem rumo à Fordlândia só aconteceu em 1998. Chegou a Belém e pegou um barco rumo à Santarém, em três dias de viagem. De lá, outro barco e mais 12 horas para chegar até o destino. Encontrou Dona América, com quem conseguiu obter valiosas informações. Ela foi para o município ainda adolescente em busca de emprego, para trabalhar na casa de imigrantes dos Estados Unidos. Marinho começava a desvendar ainda mais detalhes da história de um projeto que deu errado. E a idéia de realizar o documentário começava a se delinear. “É uma história de muita coragem. O Ford era o maior industrial do mundo naquela época. Era um grande sonhador”, diz Marinho.

VIVÊNCIA

Dividindo a direção com Daniel Augusto e contando com Roberto Santos Filho, na função de diretor de fotografia, Marinho só iniciou o planejamento das filmagens em 2004. Em 2005, a equipe permaneceu por 22 dias em Fordlândia - período em que foram gravados depoimentos como o de Dona Olinda, hoje com 100 anos, e que testemunhou o protesto de operários conhecido como “Quebra Panelas”. “Os americanos queriam que os brasileiros comessem como eles, sem o peixe, a farinha, a cachaça. Houve uma revolta braba”, conta Marinho, acrescentando que havia Lei Seca e que os bordéis foram transferidos para o outro lado do Rio Tapajós, lugar que ficou sendo chamado de “Ilha dos Inocentes”. Em 2005, a equipe de produção foi até Detroit, no estado do Michigan, nos Estados Unidos, onde os produtores e diretores foram até a sede da Ford Motor Company, e em Dearborn, na mansão em que Henry Ford nasceu e viveu.

Ainda nos Estados Unidos, Marinho também encontrou vídeos feitos em Fordlândia à época de sua criação, no Arquivo Nacional de Washington. Henry Ford era muito amigo de Thomas Edison – conhecido inventor da lâmpada elétrica e de outras engenhocas no começo do século XX –, que concedeu câmeras de vídeo ao amigo. “Ele mandou câmeras pra cá e eles filmaram tudo. Encontramos esse material preservado”, diz o diretor, que em três dias separou o necessário para compor o documentário. Ainda nos EUA descobriu alguns filhos de Fordlândia que regressaram ao país. Ed e Charles Townsend, hoje com 86 e 78 anos, respectivamente, são banqueiros e vieram ao Brasil, em 2005 e 2006, revisitar o lugar em que nasceram. “Eles falam português. A Dona América foi babá do Charles”, revela Marinho.

Diante de tanta informação, foi preciso estabelecer parâmetros cinematográficos, e não didáticos, para a realização do documentário. “O filme não responde perguntas; faz perguntas”, define o diretor. Pela visão dos irmãos que regressam dos Estados Unidos, Fordlândia aparece em vídeo sob a emoção deles. “Não conto uma história de bandido. É uma história de homens”, diz Marinho, sobre a capacida de Henry Ford em acreditar no sonho amazônico. “Foi um marco do capitalismo mundial e que ninguém presta muita atenção. O documentário mostra essa realidade nua e crua de uma arrogância, de uma prepotência americana em relação à Amazônia”, diz. “Henry Ford e equipe nunca ouviram o povo da floresta. Derrubaram 1 milhão de hectares da floresta e plantaram seringueiras como eucalipto. Até que em 1945, uma praga, o “mal das folhas”, destruiu a plantação”, conta.

Publicado ontem no Diário do Pará Online

2 comentários:

Anônimo disse...

merecido o premio conquistado por esse documentário, que mais pessoas ligadas ao seguimento atentassem à divulgação do que é nosso.Nossa Amazônia merece toda divulgação e a tão comentada "proteção", que nem sempre é respeitada.
VIVA a nossa AMAZÔNIA e em especial; a nossa BELTERRA.

Adauto disse...

Sempre me espanto acerca do quão pouco sabemos de nossa própria história...