sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Belterra, um sonho americano construído na floresta

Por RONALDO KOTSCHO

belterra5Uma das viagens mais emocionantes que fiz ao longo de quarenta e dois anos de jornalismo foi para Belterra no estado do Pará. Estava fazendo um anuário especial da Embrapa e uma das pautas, era mostrar o trabalho dos pesquisadores no manejo de florestas.

Logo na chegada, me emocionei com o lugar. Eu que já havia conhecido inúmeros países e grande parte do Brasil, não imaginava conhecer uma cidade tão diferente.

E o mais incrível foi saber que o idealizador desta cidade americana no meio da selva e na margem do tapajós, não chegou a ver o seu sonho realizado.

O grande construtor dos primeiros veículos a motor, Henry Ford, quando soube que o látex extraído dos seringais da Amazônia poderia ser transformado em borracha e produzir um excelente pneu para os carros produzidos pela Companhia Ford, mandou construir uma cidade e iniciar uma grande plantação de seringais no lugar. belterraSeria a maior produção de borracha natural do mundo. O lugar passou a ser chamado de Fordlândia. Nascia, então, a Fordlândia, em meio a um milhão de hectares cedidos pelo governo brasileiro. A vila foi construída com a mesma arquitetura das cidades da época (1840) das vilas mais modernas dos Estados Unidos.

Ford, quando estava prestes a embarcar para o Brasil, para conhecer o seu mais novo empreendimento teve de desistir devido ao falecimento do filho.

Anos mais tarde, o projeto teve que ser abandonado devido à grande incidência de doenças nos seringais e, principalmente, a descoberta da borracha sintética na Malásia.

Com a saída da Ford, o lugar ficou abandonado durante trinta e nove anos, depois foi incorporada no ministério da agricultura. Em 1997, a cidade foi transformada em município.

belterra1O mais incrível dessa história toda é que as construções permaneceram intactas e praticamente nada mudou na cidade. A pista de atletismo construída para os trabalhadores contratados pela Ford, a Igreja, as moradias, hospital, mercearias e toda infra-estrutura está lá praticamente intocada. E foi isso que me emocionou e deve emocionar a todos que tiverem a felicidade de conhecer esta cidade “americana” no coração da Amazônia. E foi neste lugar que conheci um funcionário da Embrapa que acompanhou por muitos anos como mateiro um botânico inglês que fora contratado pelo governo brasileiro para dar nomes às árvores e todas as demais plantas da floresta.

Aquele senhor era analfabeto. Mas tinha uma memória privilegiada e durante anos trabalhou com o pesquisador inglês, conseguindo decorar o nome científico e o nome popular de cada árvore, flor, arbusto, cipó e toda a demais vegetação da floresta. O mais incrível foi que o inglês foi embora e levou com ele todo estudo de anos e anos das plantas da floresta. Ebelterra_3 somente aquele incrível senhor analfabeto guardou na memória aquele importante estudo. E foi com ele, que a nossa equipe entrou na floresta e teve a maior aula de biologia, que nenhum professor doutor poderia dar.



belterra_4


Foto dos filhos dos trabalhadores na década de 40

Um comentário:

Eraldo Paulino disse...

Hmmm que interessante.

É como meu professor costuma falar: Existem muitos mundos dentro do nosso mundo.

Bjs!