segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os venenos da floresta

© Instituto Butantan/Giuseppe Puorto
Crianças da Amazônia: em uma praia do Tapajós

Os paulistas estão sendo bem recebidos. “O conhecimento do Butantan vem com o intuito de empoderar [fortalecer] as pessoas”, afirmou Geraldo Pastana de Oliveira, prefeito de Belterra, município de 12 mil habitantes a 48 km de Santarém, a cidade mais próxima, de quase 300 mil moradores. O porte de cada cidade não é o único contraste. Santarém move-se continuamente em torno do porto, um dos principais do Norte, e do calçadão à beira de um rio a perder de vista, o Tapajós, cujas águas azul-esverdeadas se misturam ali com as águas barrentas do Amazonas. Belterra é menos explícita. Quem chega no início da tarde tem a impressão de que encontrou uma cidade abandonada, com casas de madeira que lembram filmes do início do século passado. Não há ninguém à vista. Óbvio: todos dormem para fugir do calor intenso, úmido, amazônico.

Agora sai pouca poeira das ruas principais, longas e retas, asfaltadas há poucos anos, ainda margeadas por hidrantes, outro sinal da peculiar história desta cidade. Belterra foi uma das cidades criadas no século passado pelo empresário norte-americano Henry Ford para produzir borracha natural, a partir da seringueira (ver Pesquisa Fapesp nº158, de abril de 2009). A outra foi Fordlândia, a 130 quilômetros de distância, cujas plantações com quase 2 milhões de seringueiras logo ruíram por causa de uma inesperada doença. Os 3,2 milhões de seringueiras de Belterra se deram melhor, cresceram em solo mais fértil e sobreviveram à praga. Durante décadas a cidade produziu muita borracha, em uma rotina interrompida às vezes por incêndios – daí os hidrantes por toda parte.

Chardival Moura Pantoja nasceu em Belterra há 70 anos, cresceu nas “creches de Henry Ford”, como ele diz, estudou nas escolas construídas por Henry Ford e trabalhou nas plantações de seringueira e na produção de borracha natural. Ele viveu os tempos de prosperidade, quando os moradores mais ricos iam ao campo de golfe e os mais simples ao cinema. Logo depois da Segunda Guerra Mundial começou a derrocada, causada pela emergência da borracha sintética, mais barata que a natural, e pelo abandono dos seringais. O hospital da cidade, que antes atendia toda a região, pegou fogo e jamais se recuperou inteiramente.

Outro olhar - Pantoja foi funcionário público federal no final dos anos 1970, durante os tempos mais difíceis. Saiu e viveu alguns anos em outros estados. Preferiu voltar e durante 10 anos liderou a batalha pela emancipação do município, conseguida em 1997. “Não queríamos ficar subordinados a Santarém”, argumenta. Agora ele e os outros moradores, que no final da tarde se sentam para conversar nos bancos em frente às casas, acompanham com satisfação os movimentos da equipe do Butantan, aparentemente ávidos por participar de outra aventura grandiosa. “Desde o início [os pesquisadores do Butantan] me procuraram e tiveram a consideração de me colocar a par do que estão fazendo”, relatou Pantoja. “Estão procurando se integrar na sociedade e ajudar a resolver nossos problemas.” O Butantan deve instalar em Belterra – em um terreno de 64 hectares ainda completamente tomado por mata – sua base avançada de pesquisas na Amazônia. “Meu sonho é ter ali também um laboratório de ciências para atender os estudantes e os professores da rede fundamental de ensino”, diz Mercadante. “É perfeitamente viável.”

Uma equipe multidisciplinar que inclui a médica Fan Hui Wen reconstrói a história da saúde em Belterra. Em colaboração com Maria Amélia Mascarenhas Dantes, da Universidade de São Paulo (USP), o grupo tem gravado e filmado longas conversas com pessoas como Pantoja, que ajudaram a construir a cidade. Moradores como Edineusa Medeiros Alves, dona de uma farmácia, também conhecida como Neusa, e Arlison José Santos Reis, o Lica, dono de uma hospedaria, chamam Hui de doutora, como se doutora fosse um sinônimo mais simples de seu nome. Ela trata a todos respeitosamente, como se eles é que fossem doutores e donos de vasto currículo acadêmico. O que realmente importa é passar pelo olhar de raio X dos moradores, aceitar os silêncios das conversas e mostrar capacidade para ouvir. “Alguns animais que são perigosos para nós não são para eles. A jiboia, dizem, normalmente não é venenosa; por alguma razão, dizem, só é venenosa em agosto”, diz Hui. “Temos de ter outro olhar.”

Por ali, para tratar picadas de arraia, os moradores jogam água quente ou baforadas de fumo. “Faz sentido”, atesta Francisco Siqueira França, médico do Butantan, “porque o veneno é sensível a temperatura alta”. A maioria dos pa­raenses toma remédios caseiros, à base de plantas, para evitar ou tratar mordidas de cobra. Magnólio, que costuma visitar as vilas ribeirinhas nos barcos do Projeto Saúde e Alegria, conta que já listou cerca de 200 remédios caseiros. Um deles, chamado Pau-X, é especial. Ana Moura verificou que esse chá de raízes inibe as hemorraginas, enzimas do veneno de serpentes que causam hemorragia, e esses inibidores poderiam ter outras aplicações médicas. O problema é que a formulação do Pau--X é sigilosa e passa por uma tradição religiosa mantida por pajés da região. “Quem sou eu, uma bioquímica, diante de um pajé?”, questiona-se, diante de um impasse ainda sem saída.

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