quarta-feira, 15 de abril de 2009

E a tecnologia vai excluir mais os excluídos?

Publicado originalmente no blog do Jeso Carneiro

por Paulo Lima (*)

As tendências da comunicação móvel são impressionantes, é a convergência nas mãos: tv, rádio, áudio e vídeo conferência, mobilidade, gps, dados, internet, mapas e todo tipo de “pavulagem” como se diz aqui no Pará.

Mas o que vemos com a chegada do GSM (WCDMA) na Amazônia é o fim da comunicação, mesmo que precária e instável que por aqui se tinha com o TDMA nas áreas rurais.

Para quem não conhece, a Amazônia tem cerca de 3 milhões de brasileiros que vivem nas áreas rurais, são povos tradicionais, em sua maioria caboclos, que praticam extrativismo e agricultura itinerante. Vivem da caça, pesca, coleta de produtos da floresta e lavouras regionais, com renda familiar per capita média até um salário mínimo, de aposentaria rural ou algum programa de transferência de renda governamental.

Os serviços públicos, que se limitam basicamente às áreas urbanas, operam com capacidade esgotada e demanda reprimida, deixando essas populações praticamente sem acesso a serviços essenciais como a educação, saúde, tratamento de água e esgoto, energia elétrica e telecomunicações.

Habitam região rica em recursos naturais, mas estão submetidos ao empobrecimento crescente, porque suas potencialidades são mal aproveitadas, faltando basicamente apoios técnicos, incentivos e retaguarda institucional para que se desenvolvam. E agora vai faltar acesso à telefonia celular!

O TDMA funcionou durante bastante tempo na operação das operadoras na região, depois veio a migração para o CDMA, ambas soluções com bom compromisso de alcance mas limitações na agregação de serviços de banda larga.

O 3G é o inverso dessas tecnologias: entregam grandes quantidades de dados e usam, com grandes investimentos, todas as possibilidades da convergência, mas não tem o compromisso com o alcance. Ou seja, a tecnologia privilegia grandes aglomerados populacionais que tenham condições de uma exploração comercial vantajosa para as empresas.

As empresas da região estão desativando as operações de telefonia celular com TDMA e CDMA e reproduzindo uma política comercial excludente que nasce no processo de privatização do país. Isso para não falar que a telefonia fixa rural é um fracasso contundente que merece um outro artigo.

É hora de tomar as decisões acertadas e não somente movidas pelos interesses do mercado. Comunicação é concessão pública e é fundamental que ela considere o isolamento das populações tradicionais com tecnologias apropriadas.

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É historiador e integrante da ONG Projeto Saúde & Alegria, de Santarém.

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