terça-feira, 7 de abril de 2009

45 anos do golpe e a ditadura - Entrevista com Dilma Roussef

Seguindo a lembrança resistente focada nos dilemas da juventude, o blog Juventude em Pauta publica abaixo entrevista com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, que sai neste final-de-semana na Folha de São Paulo. Destaque para os trechos em que ela aborda sua experiência político-militar como jovem ativista, de onde se pode extrair um retrato sobre os sonhos e dramas daquela geração, vividos por uma de suas mais luminosas representantes.

FOLHA - Como foi o início da militância da senhora, sair de estudante no Estadual Central e entrar na Polop?

DILMA- Era uma coisa muito natural, as organizações eram estudantis. Era um prolongamento do que se fazia, distribuir panfleto na escola, participar de manifestação estudantil. É normal. Na minha época, logo no inicinho, não havia essa distinção tão forte [entre simpatizante e militante].

FOLHA - A senhora estava tomando café da manhã na [lanchonete, em Belo Horizonte] Torre Eiffel quando ficou sabendo do AI-5?

DILMA- Não era bem café da manhã. A gente tomava um cafezinho e comia um pão de queijo. Você se lembra da Torre Eiffel? Ela ainda existe?

FOLHA - Agora só faz salgados para fora, não é mais uma lanchonete.

DILMA- Eu gostava da empadinha de queijo, de massa podre, era muito boa.

FOLHA - Mas a senhora estava tomando cafezinho com pão de queijo quando...

DILMA- Um dos meninos passou, um companheiro de organização disse: "Decretaram o AI-5".

FOLHA - A senhora logo percebeu que a clandestinidade seria o caminho natural?

DILMA- Eu percebi. Todo mundo achava que podia haver no Brasil algo muito terrível como o que aconteceu na Indonésia. Esse receio de que um dia eles amanheceriam e começariam a matar era muito forte. Eu sou bem velha, comecei em 1964. A maioria tinha um nível de adesão que não era muito grande, mas também não era pequeno. Com o passar do tempo, o Brasil foi se fechando, as coisas foram ficando cada vez mais qualificadas como subversivas. Era subversivo até uma música, uma peça de teatro, qualquer manifestação de rua era subversiva. Eu me lembro muito que discutir reforma universitária subversivíssimo. Coisas absolutamente triviais hoje eram muito subversivas.

FOLHA - Quando a Polop se fragmentou, um grupo virou VPR e outro Colina lá em 1967?

DILMA- Não, virou duas organizações diferentes. A nossa não tinha nome. A nossa ficou uma organização era O pontinhos.

FOLHA - Quando vira Colina?

DILMA- Todo mundo que era dessa organização, nós sempre ficamos juntos. Houve sempre dentro desse grupo uma visão diferenciada, tinha um pessoal que achava que tinha de ter luta armada e outro que achava que a linha de massa era mais forte. Isso vai permanecer. Tanto é que os que acham que a linha de massa era mais forte viram VAR e ficam sempre VAR. Os que acham que a luta armada era o melhor caminho começam VPR e vão ser VPR depois que a VAR racha. Colina foi um período curto na minha cabeça e eu não me lembro direito se era três meses, dois meses. Até porque a gente não gostava de libertação nacional...

FOLHA - Por quê?

DILMA- Porque eram duas linhas: uma era a revolução socialista e a outra libertação nacional. O povo da revolução socialista era linha de massa e o povo da libertação nacional era luta armada.

FOLHA - Foi uma escolha da senhora o trabalho no setor de mobilização urbana?

DILMA- Qual era a outra alternativa?

FOLHA - Havia o setor de expropriação.

DILMA- Disso eu nunca quis ser. Nós não achávamos isso grande coisa.

FOLHA - A senhora chegou a receber Iara Iavelberg em casa?

DILMA- Eu não tinha casa, minha filha. Ela, uma vez, me levou para ficar num apartamento que ela conseguiu e eu não perguntei. A gente não perguntava. Era um apartamento meio vazio, que só tinha cama, uma geladeira e fogão.

FOLHA - Eu li a biografia dela e lá conta que ela levou a senhora no Jambert para cortar o cabelo...

DILMA- Ela levou sim. Ela gostava muito de bons cabeleireiros, ela tinha muito bom gosto.

FOLHA - Mas era um salão chiquíssimo, que servia champanhe aos clientes...

DILMA- Pois é minha querida, você entra e sai. Igual a todo mundo.

FOLHA - Não era contra os princípios de vocês? Pelo visto, não...

DILMA- Que princípios, querida? Fui lá, o cara era... não cabe dizer por que nós fomos lá, não vou falar não, santa.

FOLHA - Beberam champanhe?

DILMA- Não me lembro disso clarinho como foi, não me lembro do lugar que era. Lembro que fui cortar o cabelo com ela e chamava Jambert. E que era um bom cabeleireiro e que ele cortou o cabelo bem bonitinho em mim.

FOLHA - Ministra, no Rio a senhora acompanhou a fusão e acompanhou o racha. A senhora chegou a ir ao congresso de Teresópolis?

DILMA- Eu cheguei.

FOLHA - Foram mais de 20 dias. Deve ter sido um Congresso extremamente tenso porque ninguém entrava nem saía...

DILMA- Na minha cabeça, eu só lembro que a gente conversava e discutia muito, debatia. Tinha uma infraestrutura complexa porque a gente não saía de lá, não podia aparecer. Bom não era. Mas, naquela época, você achava que estava fazendo tudo pelo bem da humanidade. Nunca se esqueça que a gente achava que estava salvando o mundo de um jeito que só acha aos 19, 20 anos. Sem nenhum ceticismo, com uma grande generosidade. Tudo fica mais fácil. Tudo fica mais justificado, todas as dificuldades. Você não ter roupa não tem problema. Você perdia a roupa toda. Às vezes andava com uma calça xadrez e uma blusa xadrez.

FOLHA - A senhora faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?

DILMA- Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha, seria estranho que tivesse a mesma cabeça. Seria até caso patológico. As pessoas mudam na vida, todos nós. Eu não mudei de lado não, isso é um orgulho. Eu mudei de métodos, de visão. Inclusive por causa daquilo eu entendi muito mais coisas.

FOLHA - Como o que?

DILMA- O valor da democracia, por exemplo. Por causa daquilo, eu entendi os processos absolutamente perversos. A tortura é um ato perverso. Tem um componente da tortura que é o que fizeram com aqueles meninos, os arrependidos, que iam para a televisão. Além da tortura, você tira a honra da pessoa. Acho que fizeram muito isso no Brasil. Por isso que, minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Você não imagina. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, que vai do sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana. Então, não dá para chamar isso de ditabranda não.

FOLHA - Como era o dia-a-dia da prisão? Algumas companheiras de cela dizem que a senhora dava aula de macroeconomia, mas não gostava muito dos trabalhos manuais de tricô e crochê...

DILMA- Aprendi bem. Sei fazer tricô e crochê.

FOLHA - Ainda faz?

DILMA- Olha, você sabe que eu faço tapete? Mas não aprendi tapete lá não. Mas eu fazia muito bem crochê. Podem falar que eu não fazia... (risos)

FOLHA - Falavam que não gostava muito...DILMA- No fim, eu gostava de fazer crochê.

FOLHA - E as aulas de macroeconomia? Falavam que a senhora tinha 22 anos, mas dava aula como se fosse uma experiente economista.

DILMA- Estão fantasiando, estão fantasiando...

FOLHA - São suas amigas, o que eu posso fazer?

DILMA- Mas elas estão fantasiando.

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